
Minha Mãe Odila
Teu último dia deixou marcas profundas
Era num tempo em que minha mente infantil
Não te entendia,
não te ouvia
Nem chegara a te amar.
Você desse jeito
Calada me olhava,
Tão calma sorria,
Tão quieta , chorava.
Você que me trouxe à vida
Sofreu tantas dores para me ver nascer
E amou, simplismente!
Me achava formosa, toda bela, dengosa,
E queria para mim só a paz e o amor.
E a vida da gente, tão vã e sútil,
Não quis nos ver juntas
E foi te levar!
Fiquei tão sozinha
Sentindo tua falta
Tão só, sem você!
O tempo passando
E eu pensava no mundo malvado
Que te roubou de mim.
Hoje
Já sou uma mocinha
Te amo ainda apesar dessa ausência
E continuo sentindo tua falta em mim.
Mas penso em você que amava e me amava...
E sou grata ao meu Deus por me lembrar de ti.
Eu sei que te foste
E eu não te esqueci.
Às vezes eu penso e não me conformo
Porque nunca na vida eu soube o que é ter uma mãe!
Uma mãe desse jeito
Do teu jeito lindo de ser.
Mãe que sofrida, cansada da lida
Chorava e calava...
E sempre dizia:
-Minha filha, não vá desistir!
E o fim do caminho surgiu para você.
Surgiu tão depressa
Chegou sem demora, tão cedo, madrugada
E te foste calada...
Sem me ver crescer!
Hoje aos dezesseis anos de minha vida
Eu queria ter você junto a mim
Para te contar meu segredo,
Te ver, te abraçar , enfim.
Odeio essa morte
Odeio esse abismo de trevas entre nós.
Mas vivo.
Se choro, sorrio.
Se desisto, reflito.
Pois sei que querias para mim o melhor.
Obrigada mamãe, por me fazer nascer.
Te amo vida, por me ajudar crescer.
Odeio-te morte
Por tê-la feito morrer!
E este foi o primeiro poema escrito pela menina quando completou dezesseis anos de idade.
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toque de vida
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E assim chegou a menina no seu lugar. Sentia que seria definitivo. Sentia que seria prá sempre. E foi. A vida recomeçava... já conhecia aquela vida. A casa de Nena era maravilhosa, tinha a cor verde e janelas vermelhas... não parece combinar, mas estes são os olhos de quem não estava lá... mas combinava sim. Havia uma área na frente e uma escada de quatro degraus. Ficava no alto e era de madeira.
A casa da tia era verde também. Tinha uma frente em alvenaria e seguia pelo seu corpo em madeira. Havia uma entrada lateral que era uma descida...uma pequena inclinação e a parreira ficava ao lado. Em baixo da parreira estavam os sonhos da menina. Era ali que ficava nas suas poucas horas de folga. Ali montava sua casinha de brinquedo, com brinquedos que não tinha...eram todos da sua imaginação.
O pomar ficava lá no fundo. De lá avistava o campo, as vacas pastando, a casa do rapaz que tocava numa banda regionalista. Ela pensava na possibilidade de morar ao lado de gente que poderia um dia serem famosos. Era assim os sonhos dela.
Ninguém sabia mais dela do que aquelas árvores e seus frutos e seus galhos. Ninguém sabia do que se passava no seu coração mais do que ela própria. Aprendera a silenciar seus sentimentos e não questionar o que acontecia na sua vida. Tinha aquela casa como sua... era ali que deveria ficar como se não houvesse outro rumo, nem outra opção, nem outra escolha. E ali estava porque a vida quis assim.
Um dia para sua surpresa as suas irmãs chegaram. Disseram-lhe que vieram morar ali. Ela se encheu de alegria porque era isso tudo o que mais queria! Porém, ficou sabendo que a pequena moraria com a tia que estava mais distante e a do meio com a avó cuja casa era em frente. Pensou na beleza que seria poder dialogar com a irmã, contar a ela seus medos, suas alegrias e irem juntas para a escola. Apenas sonhos seus, a vida não foi assim. A vida era uma constante saudade e um forte distanciamento.
A avó era tremendamente irritada e cheia de regras e normas. Proibia a menina de brincar. Da janela elas se contemplavam...uma de cada lado da rua. Como se fossem proibidas de estarem juntas. E poucas vezes se viram. Isso a entristecia muito. Quando ficavam juntas lá se ouvia o grito da avó solicitando a presença da pequena. E imeditamente ia. Assim era. Assim passaram-se os dias e tudo era igual. Os sonhos de ter uma irmã e estar junto...caíam por terra. Tinham que viver separadmente como se não fossem de uma mesma família. E cada uma recebeu do lar onde estava uma educação diferente. Cada uma aprendeu a se defender como podia. Tinha seu estilo, sua forma de pensar, seu jeito de viver e resolver seus conflitos. Três vidas... Três histórias! Foi assim.
Quando chegou um sábado pelo mês de agosto a tia foi passear na casa de uma amiga. E após o almoço ela corria e brincava com o filho da mulher que se chamava Paulinho. Era uma chácara enorme, com muitos pessegueiros e marmelos. Num determinado momento a menina entra na casa para tomar água. E sem querer, ouve a conversa da tia e da sua amiga que diz:
- E a mãe dessa garota?
-Morreu - disse a tia.
Nada mais ouviu. Apenas saiu dali. Coração apertado. Lágrimas sufocadas. Agora entendia o porquê da chegada das irmãs. Agora sabia o que havia acontecido. E quando Paulinho procurou por ela estava no alto de um pé de maçã. E de lá não desceu. Pensava com lágrimas no seu coração...naquela mulher com quem nem tinha grande amizade, sua mãe! Pensava nas palavras do pai...e pensava em si. Agora sim, ela sabia que não tinha mais ninguém. Era preciso aprender a querer a tia como se fosse tudo em sua vida. E não ousou chorar para que ninguém a visse. Tinha muita vergonha de expor-se , de mostrar seus sentimentos. E naquele dia a memória registrou o silêncio de uma tarde triste e ensolarada, uma tarde de verdades, uma tarde de silêncios.
Anos depois a menina fez um poema num instante em que a mãe fez uma falta enorme.
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toque de vida
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13h57
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Era verão. Acordar cedinho, correr pelo gramado, sorrir o dia inteiro, esquecer a dor, as tristezas, colocar máscaras na alma e fazer de conta que tudo estava bem. Nos passeios na casa dos avós percebia a amargura do pai que em seu coração triste acusava o proprio sogro pelo descuidado com sua filha o que lhe causara a doença. Haviam figos para virarem doces, haviam gatos prá se correr atrás, haviam no pasto cavalos, o baio velho, um cavalo festivo, amado das crianças, lerdo, pesado e lembra o dia que aventurou-se a montar o baio " em pêlo" como se dizia lá (sem arreios) e ousadamente querer atravessar o rio nas costas do velho Baio. E bem no meio do leito o baio empaca e a menina fica ali, durante horas aguardando a boa vontade do baio que saiu do rio à hora que bem quis.
Rever o Toco e sua irmã Eliane. Eram os filhos de Cleonésio o dono do armazém. Seus amiguinhos de infância, o dono da bicicleta que vez por outra lhes deixava andar... Toco tinha os pés tortos, era um defeito de nascença mas pelas crianças isso jamais o tornara diferente. Eram todos amigos, cuidavam-se uns aos outros, brincavam alegremente nas casinhas ao pé das árvores. Só nasceu o preconceito quando as crianças foram lotadas de coisas e passaram a achar que a vida era mais ter do que ser. Naqueles tempos o Toco era igual a todos mesmo com suas deficiências.
Nas férias grandes chegava a Vasni. Vinha da cidade. De uma família querida que os pais sempre admiraram. Ela namorava o Cleo que era filho da Emília. Hospedava-se em sua casa e a menina era feliz. Vasni sempre sorridente, uma moça a quem a mãe elogiava e dizia: Olha só que moça bela, de bons modos, de família...Meninas têm que ser assim honradas! E era assim que ela ouvia e sonhava um dia ser.
E as férias foram marcadas pelo encontro. Encontro da vida e do campo. A menina ao seu lugar. Mas ela nem sabia que depois desse tempo a sua vida mudaria e a das irmãs também. Embora magra e sofrida dava pra sentir na mâe uma doce paz. A calmaria das pessoas que não põe sua fé e esperança apenas nesta vidinha fugaz. Alguém que sonhava um mundo novo , um novo céu, uma nova terra depois de tudo passado. Uma cidade Santa descida do céu, brilhante como a glória de Deus, onde não haverá mais choro, nem pranto, nem a dor da separação, onde todas as coisas se fariam novas e perfeitas. E assim aquela jovem mãe aprendera a enfrentar fortemente sua sina e sorrir com suas meninas e aguardar a sua morte.
Lembra a menina dos versos que a mãe cantava...Por vales de aflições, se preciso for passar, ou mesmo se feliz, sempre aqui puder andar, bem sei seguro estou, se ao sol ou sombra vou, na luz ou nas trevas, irei com Jesus! A todo lugar eu irei, com Jesus...Seguindo Sua lei , do céu eu terei a santa luz.É meu privilégio levar a Sua cruz, irei pois a todo lugar, com Jesus! Se a minha sorte for, mesmo em casa a cruz levar, quando outros a proclemam em terras de além-mar, se ficou ou se vou, contente sempre estou, pois sempre comigo , eu tenho a Jesus!
E ela foi garbosa na dor. Por conselho do pai afastaram-se. A mãe pouco ficava com as filhas para que não criassem laços para que a dor da perda fosse menor. Afastavam-nas dela. E ela sentia que teria de ser assim. E varonilmente conversava com as pessoas e lhes pedia encarecidamente que olhassem por suas meninas. Que tinha medo do pai não saber cuidar delas. Não queria que sofresse, queria que as protegessem.
E foi assim.
Quando chegou o dia de ir embora uma palavra do pai calou em sua memória e ele disse: Abrace sua mãe e talvez este seja o seu último abraço. E a menina nem quis pensar nessa verdade. Abraçou-a sorridente, ligeiramente e partiu. Novamente a menina do campo ia embora para a cidade.
Levava na alma a saudade das irmãs, do seu lugar, das histórias e a tristeza ia escondida, disfarçada de alegria.
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toque de vida
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09h31
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Timidamente chegara. Era muito bom rever os seus queridos. A mãe de cabelos grisalhos e aparência triste. Foi isso que notou tristemente. Ainda não tinha noção sobre a doença da mãe. A irmã ali estava com toda aquela expectativa aguardando este dia. A mais nova olhava de longe como se nem fossem conhecidas. E então para quebrar o gelo sairam da presença dos pais e correram para debaixo da sombra do cinamomo quando a menina da cidade foi lhes contar como era a vida lá. E não mediu palavras para que achassem que era bela, maravilhosa e começa a falar de algo desconhecido.
Tinha ido ao teatro e começa então a contar e dramatizar o que vira. A MULHER DO ZEBEDEU era a peça e assim permaneceram ali falando de tudo e brincando e sorrindo como se nem precebessem os olhares dos pais e da tia. Passaram mais algumas horas e logo era como se nunca tivesse saído de lá. Tudo estava de volta outra vez. Pelo caminho de terra ouvira os gritos do Horacy um homem, chefe de família que sempre que bebia passava gritando , gritando até chegar na sua casa. Depois foram montar a casinha...era uma delicia brincar de casinha com a irmã e a mais nova era sempre a filhinha. Logo estavam ali, correndo, sorrindo, feito borboletas azuis ao encontro de suas flores.
E era doce viver assim. Mas logo percebeu a nuvem negra. Sua mãe estava doente. E durante a noite viu o pai na beira da cama ajudando-a. Hemorragia ... era a primeira vez que ouvia essa palavra. O médico tinha sido chamado, demoraria um pouco e enquanto isso do seio o sangue jorrava. Câncer. Que dura sina para uma mãe . Saber que não estaria ali quando suas três meninas crescessem. Saber que teria de deixá-las aos cuidados do pai. Preocupações daquela mulher... que tão jovem vê sua vida sobre um pequeno horizonte.
Chorava a mãe no dia que soube de tudo. Tentara até sumir, matar-se, fugir. A dor era imensa diante do que teria que passar. Procuraram ajuda e foi a ajuda espiritual que libertou aquela mulher. Igreja Adventista do Sétimo Dia, uma pessoa bondosa chamada Cêla foi a responsável pelo equilíbrio da família e pela cura daquela mãe. Não a cura física pois estava doente mas a cura espiritual de estar pronta para morrer com a esperança maior que é a vida eterna. E foi assim que a mãe foi estudando a Biblia, confortando sua alma e sarando de tantas dúvidas e foi fácil lutar bravamente com a doença sabendo que um dia Deus lhe restauraria a saúde e ia poder ver suas filhas que seriam bem cuidadas.
Mas a menina não entendia disso quando via a mãe gemendo e o pai ao lado. Amor desmedido do esposo que socorre a esposa na hora da alegria e na hora da dor. Foram alguns meses ou anos...a menina não mediu o tempo mas mediu as palavras do pai que dizia: - Filhas, abracem sua mãe. Logo vamos ter que ficar sem ela e teremos que ser corajosos e vencedores. E sem saber nada de psicologia aquele homem simples preparava as filhas para a morte.
Seis olhos assustados e três vidas que precisariam de toda a força do mundo para serem altivas, para estarem acima de qualquer problema. E foi assim.
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toque de vida
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14h15
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Logo estava bem inteirada com as coisas da cidade. Acordava cedinho e já havia mil atividades para fazer... ajudava na limpeza da casa, no cuidado de suas roupas, o quarto,o quintal para varrer, quando precisavam de algo de um barzinho da esquina ela ia correndo buscar e assim a vida da menina fluia sem pensar muito nela. Nascera para servir era esse seu legado...pensava que fosse assim! A tarde ia para a escola. Poucas amizades, mais meninos que meninas, quase nada pra falar. A noite vinha para casa, quase correndo pelo caminho e então algumas vezes ia com Nena brincar. Nena era a filha da vizinha. Tinha os cabelos compridos era vaidosa, brincavam por pouco tempo e logo a tia chamava pois era hora de cumprir obrigações. Assim...era a cidade e a vida da menina que aprendia todas as coisas e achava que tudo o que fazia nunca contentava alguém. Era ligeira no ouvir e pronta no obedecer pois a palmada da prima sabia bem doer.
Foi assim... durante um ano quando as férias chegaram . Ficara feliz ao ouvir que para casa ia voltar. Animada esperou pelo dia de ir embora. No caminho pela janela do ônibus recordava cada instante desses tempos de ausência.
Lembrou da carta bonita que num sábado sua prima a fez escrever para a irmã e dizia assim: Querida maninha, a cidade é muito linda , há uma pracinha bonita com peixinhos . Fui levar pão para eles, só faltou você aqui. Com certeza sua mana lêra por diversas vezes a cartinha. Utopia ali descrita. A cidade era dura, era solitaria e triste, era distante e fria , a cidade era o caos. Caos da alma da menina que sentia pela vida saudades do que náo sei.
Foi passando estrada e poeira e as lembranças vinham vindo...até que num dado instante lembra o lugar onde iria, o mato, os pinheirais, a ponte que era enorme aos seus olhos de menina, os dias alegres vividos quando a familia reunida sentava para escutar o programinha do rádio... a luz do lampião aceso, os móveis amarelinhos, os bifes enormes na chapa de um fogão de lenha, ovos cozidos na casca e servidos bem molinhos, as enormes árvores, cinamômos que lhes davam uma rede a balançar. Era assim naqueles tempos que se tomava Sadol e depois com os vidrinhos ia contente a brincar imaginando que fossem boizinhos pra por no pasto e amarravam próximo ao rio na época em que a chuva vinha.... e dia após dia sonhavam com os vidrinhos que lá deixavam. Era como uma festa o dia de ir conferir qual deles estava lá depois do frio e da chuva dar lugar ao céu azul.
¨Lembrares¨ daqueles tempos...que agora pertinho estavam e a todos ia rever. Assim crescia a menina em suave expectativa achando que a felicidade tinha uma data especial.
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toque de vida
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20h12
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De repente ao longe, ouve-se a música tão amada pelas crianças o Parabéns prá Você. Veio trazida pelo vento junto à janela do ônibus. E a menina lembra então daquela tarde, a casa da dona Emília, o aniversário da Mari, era a caçula de lá. seu Arno um homem sério, nunca sorria pensava a menina. E foi assim que ao escutar lembrou daquele bolo, as velinhas, a alegria. Talvez tenha sido esta a primeira festa. Não era sua é certo, mas já valia. E via Mari feliz recebendo seus parentes, presentes, bexigas... e na memória do tempo era isto o que restou.
Depois a igreja veio a mente. A carroça que cortava aquela estrada e ia longe para levar a família na igreja. Eram Adventistas os pais. Assim ouvira a menina. Mas iam a cada sábado e ali na igrejinha haviam outras pessoas, vindas de todo lugar. Não tinham nomes, nem laços e foram quadros que a vida foi pintando sem saber.
E então bem a tardinha ela chega na cidade!
A prima foi a primeira a lhe dar as boas vindas. Parecia um mundo estranho, tudo imenso, diferente, a menina teve medo. A prima foi logo lhe mostrando o corredor, o chão vermelho e brilhante, o seu quarto, a casa toda. A menian olhava atônita, não queria ali ficar. Mas ninguém lhe perguntou. Só diziam é preciso e a menina até sabia que assim teria de ser. E assim foi.
Quando passou mais um dia e o pai tinha ido embora a menina se viu só. Agora uma nova vida. Uma escola com três andares e mais de oito quarteirões para sozinha andar. A prima , a tia e o tio que só vinha para casa em algumas ocasiões. Tinha terras e delas cuidava e era longe dali. Então a menina vai acordando do sonho para a vida.
Primeira lição: o capricho. Aprendeu a varrer, lustrar, lavar... Aprendeu a ir a escola sozinha mesmo que fosse distante, caminhar em passos largos, não dar ouvidos a ninguém, não aceitar nada de estranhos, sair da escola para casa, ir ao armazém sempre que preciso fosse, ajudar a empregada que se chamava Arminda. E foi assim. Tudo muito rápido para alguém que estava no mundo da lua, quem sabe. Muita coisa era fácil, outras nem quis aprender.
Era azul a escola e se chamava Venancio Ayres. Lembra Jussara uma menina de cabelos longos e loiros, amiga de Mariazinha. Mariazinha era a melhor aluna da sala, querida dos professores e pelas suas notas altas era desprezada por todos. E na saída da escola havia ameaças de surra para quem resolvesse conversar com mariazinha. Isso atemorizava a menina que jamais isso tentou. Embora admirasse a meiguice da Maria nem sequer lhe disse oi e assim se preservou.
Tinha medos escondidos e a solidão era dela. Não falava seus temores, não achava com quem falar. Guardava só para si todas as coisas e dentro da alma havia coisas demais. Muito secretamente chorava a saudade de casa, chorava a falta da irmã. Tinha medo de demonstrar todo e qualquer sentimento. Eassim, o seu lamento, só era visto pela noite, pela escuridão do quarto, quando olhava da janela e via um homem assustador. Era seu Mota. Um feiticeiro. No páteo da sua casa havia uma imagem de uma cabeça de boi e lâmpadas vermelhas eram seus olhos. Assustador era seu Mota. Da janela ela o via e quando perguntava à tia o que ele estava fazendo no porão de sua casa, a tia lhe respondia: -Ele é um feiticeiro! Isso lhe dava medo que em silêncio suportou.
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toque de vida
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14h28
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Ao acordar vê que a viagem ainda não acabara. Pensa então naquele dia em que junto a outras crianças brincava na serraria... era divertido brincar ali. Havia Sueli, Cláudio, o riozinho, a serragem, as máquinas no seu barulho infernal, as toras e naquela tarde resolveram tirar o leite de uma vaca sem o conhecimento dos pais. Quando a vaca encostou-se na parede prensando Cláudio as meninas gritaram assustadas. Era assim. Havia o louco da ponte que uma vez ou outra na vida voltava para o lugar. Assim diziam os pais. Nunca se fastem de casa pois não se sabe o dia que o louco há de voltar! E as crianças obedientes iam aprendendo que o bem era bem e que o mal trazia consequências.
Depois o barulho da sanfona. A música sertaneja e triste de um parente do avô. Tocava em todo entardecer. Era assim que ela lembrava daquele bendito lugar. As pombas com seu canto triste a incomodavam. Tinha muitas delas na casa do avô. Havia o pomar de pêssegos, figos e os doces que mamâe fazia.
Sentia o cheiro do pão assando, a lata redonda do melado açucarado, o dia em que o pai chegava e trazia ameixas, bananas...era alegria era festa comer as frutas saborosas. As vezes iam ao mato para encontrar Guabiroba era assim que se chamava uma frutinha amarela. Tudo tinha um ritual, tudo tinha um colorido, tudo tinha um sentido na expressão dos olhos dela.
A ponte que atravessava para a casa do Horacy era uma árvore caída. Lembra a menina. Como era difícil passar ali. Parecia a imensidão, parecia um precipício. Como eram simples os problemas que a menina tinha então. E se achava que eram grandes!
Depois a menina ia percebendo que a vida estava mudando. Não mais havia alegria, começaram a segredar. Os pais falavam baixinho, parecia que não queriam revelar alguma coisa. E a mãe que tantas vezes saía, brincava junto, começaca a se guardar, manter-se em casa calada, colocaram uma empregada para o serviço fazer. Era como se uma nuvem negra estivesse se achegando. nada diziam às crianças e nada elas perguntavam mas a vida ia sendo entendida com o dia após o dia e anoite que logo vinha. Viam as lágrimas nos olhos da mãe. Era triste aquela cena. Por que será? Perguntas não respondidas que com o tempo e a vida precisaram ser entendidas.
E assim foi o acordar olhando ao longe a paisagem que talvez não visse mais. Lhe disseram que ia embora, que a cidade a esperava, que era lá o seu lugar. E ela estava indo.
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toque de vida
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14h16
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No dia da partida seu olhar era triste. Deixava ali as irmãs, as amiguinhas de brincadeiras, o lugar tão seu, com seu silêncio e sua rotina peculiar. Ficava o rio cheio de pedras e rasinho onde era gostoso ir escondido para comer hortelãs. Ficava o gramado, o escorregador, motivo de tantas brincadeiras quando uma tábua descia pelo barranco levando em cima o desejo de voar, de correr, desbravar, de aventurar-se.
Para trás ficaria a lembrança daquele dia em que a mãe havia ido para a capital... era um lindo dia e as crianças felizes comemoravam esta data tão importante para elas. Pensavam em quantas histórias a mãe traria de lá, quantas coisas haveria para se falar, para se contar... E na sua ausência uma empregada chamada Edite da casa e das meninas cuidava. Edite era gentil... por ser gentil era amada. Edite fez ao pé de uma árvore uma linda casinha com pauzinhos pregados ao chão. Ali voava os sonhos dela. Nunca vira um brinquedo tão maravilhoso quanto àquele que Edite fizera. Por muitos anos a casinha esteve na mente da menina e a vida dela era boa por causa de fatos assim.
Simplicidades era o que via na janela da alma. Depois de alguns dias o ônibus que era amarelo e passava diariamente, chegou trazendo a mãe. De volta ao lar a mãe querida. As meninas a rodearam e naõ entenderam as lágrimas. Sim ...era uma mulher alta, esguia, magra e chorava. Será que não havia sido bom o passeio pela capital? As meninas caladas obeservaram a cena e então para fugir do que não lhes era agradável sumiram no campo, correram na vida, como correm pelos campos as lindas e azuis borboletas. E foi assim aqueles dias que na mente ficaram para serem entendidos depois.
E ainda pela janela do ônibus contemplava episódios que vivera até então. Dorilda se chamava a menina. Tinham praticamente a mesma idade. Na casa dela havia uma cortina artesanal de papel. Era linda aos olhos da menina. Pensava guardar papéis para fazer uma igual, sonho este que nunca realizou. Depois aquela mata, que ficava ao fundo da casa de Dorilda, mata que no outono virava um mar de folhas...era como as paisagens européias. E ali, varriam um lugar e tudo virava casinha. E como não haviam brinquedos qualquer coisa eram pratos, qualquer coisa eram vidros, qualquer coisa eram talheres... e a brincadeira era mantida por horas e horas e horas que até o dia acabava.
E chegara aquele dia em que diante do ônibus amarelo teria que subir e partir. E seu olhar tristonho via a casinha de madeira, o comércio da esquina, a varanda da casa do avô, o caminho de grama até a escola mas o que mais lhe cortava a alma era a maozinha da irmã acenando sem parar. E foi assim pelo caminho da vida.
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toque de vida
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13h47
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Pela janela do ônibus via passar as árvores, os campos, a estrada de terra, as casas, a vida. Seria longa a viagem ou não? Nada dizia nem sabia. Era o momento que contava mais. E lembrava dos dias felizes que passara ali. Protegida ao extremo pelo pai que não a expunha a nada, nem ao vento frio, nem a noite estrelada, nem ao sol abrasador...protegida sim. Diziam que a irmã mais velha se chamava Ivanise. E que bem cedo , ainda bebê, havia morrido. Diziam que a mãe sofrera muito com a perda e que por essa razão a enchiam de cuidados.
Lembrava da casa dos avós que eram donos de terras. Talvez o que tivesse as terras do lugar. Mas ouvia o pai dizer que era desamoroso e não dava atenção a família. Cresceu escutando isso e olhava para o avô com uma certa indiferença em seu coraçãozinho. A avó era uma pessoa estranha para ela. Mas a mimava também. Lembra da avó com muitos gatos. Era apaixonada por eles. Ouvia falar que o avô não gostava dos gatos e por muitas vezes os jogara no rio. Esta idéia a assustava e para mais longe de seu coração ia o avô.
Lembrava a neve naquele inverno. O fogo de chão. O pai sentado com a cuia de mate na mão. O avô chegando para se aquecer. Eram longas as suas botas de couro e ele contava histórias daquele dia de neve. Pela janela ela olhava a paisagem branca e fotografava para sempre a imagem. Talvez desejasse experiementar, construir o seu boneco, viver aquela neve por um dia mas nem ousou tentar. Sabia que não seria concedida esta alegria e por isso nem pedia. Era assim.
Nessa época a mãe estava ali ao lado delas. Lhes contava histórias a cada anoitecer. Sentavam perto da porta para ouvir o rádio num programa apreciado pelo pai. Nada se falava naquele instante. Era ouvir aquelas músicas que na verdade eram poemas. Ficavam ali a cada anoitecer naquele idílio famíliar. Pais e filhos juntos , próximos, levando na simplicidade uma vida feliz.
Havia uma rotina a ser seguida. E ela lembra disso. Levantava mais tarde porque não podia se expor ao risco do orvalho. Era só quando o sol estava forte que lhes era permitido sair de suas camas com enormes guardas, feito hoje, os berços de bebês. O pão caseiro com melado, o leite espumado da vaquinha e saiam as duas meninas correndo pelos gramados a brincar com a natureza que para elas era bela e ali naquele mundo pequenino era um lugar de fantasia, era um lugar de bem estar, era lugar da certeza, do cuidado, do encontro...era um mundinho feliz.
E assim são as imagens daqueles tempos de alegria que agora iam ficando prá trás. E da janela do ônibus havia alguém contemplando a vida.
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toque de vida
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09h01
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Era bem assim que diziam: Jorginho casai com ela, que das três é a mais trabalhadora! Talvez seja esta a palavra que mais marcou sua vida. Trabalhar no sentido de servir. Achou que veio ao mundo para isso.
E foi assim que aconteceu quando aos oito anos abandonou a família para morar com os tios. Saiu da roça para a cidade. Que nem a história daquele rato do campo que um dia abandonou o campo para ir viver com um primo na cidade. Era tal qual o rato do campo a história da Vida.
Nem questionava os porquês.Não havia o que dizer quando sabia que a mãe estava sobre uma cama com câncer no seio. Ela sabia que a mãe iria deixá-la e sabia que as pessoas tudo fariam para que ela nem pensasse nisso. Foi assim que ela pensou.
Naquela manhã de sol o ônibus amarelo fez uma parada para ela subir. Estava alegre pela mudança, por este passeio, pela aventura de ir nem sabia para onde, mas o coração apertava no peito uma dorzinha saudosa das irmãs que deixava.
Jorginho, casai com ela que das três é a mais bonita! Era assim que diziam para a irmã. E ela gostava de saber que tinha uma irmã bonita. Como se a beleza fosse única achou que era só dela. Se via a " trabalhadora" e irmã da moça bonita. Foi assim que tais palavras a impressionaram grandemente.
Ia deixá-la, no entanto. Tantas brincadeiras que ficariam para trás. O livro da escola onde liam sempre sobre Olavo e Élida. Élida viu Olavo. Olavo viu Élida. Era a professora Emília que as ensinava a ler. Passava horas sonhando com Olavo, Élida, o estojo de madeira de dois andares do colega que se chamava Ari, as tarefas colocadas no quadro-negro para serem copiadas, aquela classe meio inclinada que alem de ter um buraco para o lápis tinha o lugar da borracha. Era um mundo colorido pelo verde natural.
Lembraria sempre o caminho pisado de grama que levava à escola. A mochila feita de pano... com um bolso para o lápis, o caderno companheiro com o Hino Nacional na contra capa...e as palavras de alegria que trocava com a irmã enquanto juntas subiam para a escola, aquela simples casa de madeira. Olavo viu Élida. Élida viu Olavo. E a vida haveria de escrever essa história porque Vida crescia sem ver o sentido de muitas coisas e sem entender o porquê de tudo.
Jorginho, casai com ela que das três é a flor da terra! Era assim que falavam da caçula. Flor da terra teria que adjetivos? Jamais conseguia em sua mente infantil decifrar o sentido de ser uma flor da terra. Vinha a mente algo assim amarelinho... talvez uma florzinha dessas comuns que andavam reunidas pelos caminhos em que andava...
Também ficaria para trás aqueles momentos em que sentava ao sol para segurar a irmã. Parecia de vidro. Nada podia fazer, em nenhum lugar mexer. Era crucial ficarali imóvel até que a mamãe varresse a casa. Assim era o mundo de Vida.
Lá vem a mais velha por ser mais interesseira...Jorginho casai com ela...que das três é a mais trabalhadora!
Lá vem a do meio cheia de laços de fita...Jorginho casai com ela... que das três é a mais bonita!
Lá vem a mais nova de vestidinho amarelo... Jorginho casai com ela... que das três é a flor da terra!
E foi assim que tudo começou!
:: Postado por
toque de vida
às
21h08
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Talvez eu tenha contado mas nao totalmente... Talvez eu tenha me equivocado mas não sempre...Talvez as palavras estejam apenas dançando em minha mente...Talvez eu nem seja a menina da história...Talvez a vida nem tenha sido assim... Talvez o meu mundo fosse apenas meu e quem me viu assim fui somente eu. Talvez um dia o que haja aqui seja contado por aí...talvez, mesmo lidas, as palavras morrerão na esquina do esquecimento...Mas de uma alma brotou estas lembranças e pode ter sido esta a história de uma vida ou três vidas em uma história. Talvez seja esta minha história...ou a vida que aprendi!
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